A obra “Escritos de Uma Vida”, da filósofa, escritora, ativista e feminista negra Sueli Carneiro, foi tema de webinário nesta quinta-feria (4). O encontro foi promovido pelo Comitê de Igualdade Racial do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJGO), sob a coordenação da juíza Adriana Maria dos Santos Queiróz de Oliveira, em parceria com a Escola Judicial do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (Ejug). A apresentação, transmitida pelo canal da Ejug no YouTube, foi realizada pela professora Yordanna Lara, e a mediação foi feita pelo servidor do TJGO, Afonso Rodrigues, tutor do Fórum Permanente de Estudos Étinico-Raciais.

Ao iniciar o terceiro encontro, o mediador do webinário, Afonso Rodrigues, fez uma breve introdução sobre a obra de Sueli Carneiro, a qual seria contextualizada pela professora. O livro da escritora conta com uma coletânea de textos escritos por ela, e aborda temas como femininos negros, racismo, igualdade racial, democracia e políticas públicas. Para explicar a obra, a professora Yordanna Lara iniciou sua fala pelo ponto de vista das diversidades e relações de poder dentro da norma heliocêntrica colonial. A iniciativa teve a finalidade de elaborar e disseminar um espaço colaborativo de estudos e debates, a fim de contribuir para a promoção da igualdade étnico-racial e o combate ao racismo. 

Antes de começar sua apresentação, a professora Yordanna Lara exibiu um vídeo do Prêmio Trip de 2018, onde mostra pessoas que, com seu trabalho, ideias e iniciativas ajudam a promover o avanço do coletivo e do outro. Após a exibição, ela passou a abordar sobre como o racismo e sexismo, quando contextualizou que, desde a Segunda Guerra Mundial, mulheres e homens negros são chamados de macacos e escravos. “A forma de nomeação de certos grupos passa a ser de animalização, uma vez que apresenta uma escala de importância e, infelizmente, os animais estão numa escala mais baixa. Até na linguagem estamos desumanizando corpos, já que ela é o maior elo de suicídio”, explicou a professora ao pontuar que Sueli Carneiro, na obra, recusa a nomeação externa, principalmente quando dialoga sobre as etimologias anteriores.

Segundo ela, a escritora denuncia  que o discurso racista, além de ser crime, é histórico, já que faz seus alvos ferramentas de manutenção dele mesmo. “Esse debate é estabelecido por Sueli na década de 1970, quando, de um relacionamento interracial, ela tem uma filha negra de pele clara. A proposta de Sueli a partir da década de 1970, atravessa todo esse livro”, esclareceu. Ressaltou, ainda, que a escritora mostra como se configura o racismo como parte do exercício do poder sobre a população brasileira. “Ela trabalha o contrato racial a partir do biopoder. Essa noção de contrato explícita sobre o substrato social e sobre as pessoas negras”, frisou.

Ainda, durante a live, cuja transmissão contou com a participação de mais de 40 pessoas, a professora abordou ainda as ferramentas de manutenção do sistema. Na ocasião, ele deu exemplo de duas mulheres que estavam num shopping em Brasília de mãos dadas, e, ao saírem do estabelecimento, foram alvo de violência. “Elas eram mãe e filha que simplesmente foram confundidas com lésbicas. Estão vendo o tanto que é um ciclo fechado de violência? Você pratica o racismo mas o racismo, antes de mais nada, está interligado, articulado e retroalimentando a questão de gênero. Fazemos a manutenção nas mais diversas atitudes discriminatórias e essa violência vai te alcançar”, pontuou.

Conforme Yordanna, os 10 artigos da escritora trazem vários conceitos, tais como o fato de ela ter sido responsável por ter sido a precursora do gênero nas estatísticas do IBGE, ao revelar a cor parda. “Essa computação pode até parecer apenas uma nuance, mas se trata de uma manutenção de um outro conceito que é o da democracia racial no Brasil”, reforçou. A professora ainda mostrou um conjunto de dados, com base no ano de 1980, onde apresenta condições desvantajosas e desiguais que vão experimentar a população negra indígena.

Debates

Durante a conferência virtual, o mediador leu algumas perguntas dos participantes no chat. Ao falar sobre as políticas públicas no Brasil, Sueli, conforme Yordanna, diz que elas são identitárias, ou seja, elas vão favorecer um grupo de pessoas, já que são ações de reparação histórica. “Sueli vai observar como se estabelece a política, mas mesmo assim não se educa quem vai implementar a política”, enfatizou.

Educação

Além disso, a professora ainda aborda sobre o acesso à educação, já que entende que a educação é uma ferramenta de manutenção desse discurso, haja vista que é o mesmo é o acesso para as desigualdades sociais que estão demonstradas em vários espaços da cidade. “A cota, por exemplo, para essas pessoas nas instituições e nos processos seletivos se trata de ter uma prova mais fácil. Isso é uma alucinação, pois a gente faz as mesmas provas que todo mundo”, criticou.

Segundo ela, o racismo é a ferramenta para deixar as pessoas se tornarem criminosas, uma vez que a violência de gênero é considerada crime. “Racismo é crime, assim como violência de gênero. Espero que a partir daqui, possamos a partir dessas tantas epistemologias e de tantas intelectualidades nos trazer ferramentas de mudança. Nós precisamos nos educar e ter atitudes”. De acordo com ela, Sueli Carneiro não é pessimista, já que sua trajetória é de luta política pelo reconhecimento dessa potência do povo negro, trazendo concomitante a sua própria história.

“Sueli produziu e disseminou o conhecimento tornando-se uma referência na luta contra o racismo, então nos escritos de uma vida a autora descortina e revela que esse mundo é de novas gerações de feministas negras ”, salientou ao finalizar que “chegamos aqui para denunciar essa dor de sofrimento pela potência de vida e de ampla produção artística intelectual e espiritual”.

Para ela, a responsabilidade tem que vir junto com o conhecimento para que com isso possa se transformar em ação. Ela, então, encerrou sua palestra no webinário com a música "Mulher do Fim do Mundo, da cantora Elza Soares. (Texto/Prints e Edição de Imagens: Acaray Martins - Centro de Comunicação Social do TJGO)