
Na tarde de sexta-feira (9) foi realizada mais uma roda de conversa do programa Flores do Ipê, que integra o conjunto de iniciativas da Coordenadoria da Mulher do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJGO) com o objetivo de construir uma cultura institucional de prevenção, orientação, apoio e proteção das magistradas e servidoras do Poder Judiciário goiano em situação de violência doméstica e familiar. O Flores do Ipê foi idealizado pela servidora Morgana Rodrigues dos Santos, que conduziu o encontro, do qual participaram também a titular do 2º Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, juíza Aline Freitas da Silva; a chefe da Divisão de Inteligência Institucional do TJGO, delegada Sabrina Leles; e a representante do Centro de Saúde do TJGO na reunião, enfermeira Raquel Máximo Rodrigues.
Cuidar de quem cuida
Na ocasião, cerca de 30 convidadas, todas integrantes do corpo funcional do tribunal, trocaram ideias, experiências e informações sobre o tema e, ainda, sobre os principais desafios enfrentados pelas mulheres tanto nas relações familiares quanto na sociedade. “Gosto de dizer que essa programa tem o objetivo de cuidar de quem cuida, porque, tradicionalmente, essa função foi atribuída a nós, mulheres, porém, quem cuida de nós? Este aqui é um momento de acolhimento, de poder conversar com quem enfrenta as mesmas batalhas e que por isso tem condições de entender suas dores e desafios”, refletiu Morgana Rodrigues, ao iniciar a conversa.
Esta foi a primeira roda da qual a juíza Aline Freitas participou, embora já faça parte da Coordenadoria da Mulher. “É um programa louvável. Nós, da Justiça, atendemos e conduzimos os casos de violência doméstica contra as mulheres mas é essencial que também voltemos esse olhar para dentro da nossa própria instituição, tomar as providências necessárias para garantir segurança de magistradas e servidoras”, destacou.
Sigilo
A delegada Sabrina Leles falou do cuidado com que o TJGO lida com casos de servidoras e magistradas que procuram apoio do programa. Para exemplificar, ela citou situações de juízas de comarcas do interior que, hipoteticamente, venham a sofrer violência doméstica. “Imaginemos o constrangimento dessa vítima ao chegar àquele delegado, àquele Promotor de justiça, àquele escrivão com os quais lida rotineiramente, inclusive em casos de violência contra a mulher, para informar que, desta vez, a vítima é ela?!”, comentou, ao informar e assegurar às presentes que o programa trabalha com absoluto sigilo, de tal modo que, em casos como o exemplificado por ela, o TJGO oferta a condução do inquérito na capital, a fim de resguardar a intimidade da vítima na cidade onde atua.
Pelo programa Flores do Ipê, a juíza ou servidora vítima de violência doméstica pode procurar a Coordenadoria da Mulher, a Divisão de Inteligência Institucional ou o Centro de Saúde do TJGO em busca de ajuda.
Relatos
Durante a roda de conversa, algumas participantes fizeram relatos de situações de violência vivenciadas por elas em ambiente familiar, o que deixou outras mais confortáveis para também expôr seus dramas pessoais e debater a temática da violência contra mulheres. “Eu estava casada havia 14 anos e costumava pensar que não era vítima de violência porque não apanhava. Mas com o tempo comecei a me esquecer de quem eu era, não entendia o porquê daquilo e demorou muito para finalmente perceber a raiz daquilo tudo: um relacionamento tóxico, completamente abusivo”, contou uma servidora.
Outra colega afirmou ter vivido situação semelhante, da qual só saiu após um tempo de terapia. “Fiquei casada por quase 30 anos. Não sofria abusos físicos, mas ouvia absurdos, tinha minha autoestima abalada e me sentia o tempo todo ‘pisando em ovos’ com meu então marido. Aos poucos, fui perdendo o amor à vida porque a violência emocional é muito mais difícil de ser percebida. Você leva um tempo bem maior para identificar o que está acontecendo e os danos são muito grandes. Enquanto sofria esses abusos, eu pensava que aquilo era coisa da minha cabeça, que fazia parte da dinâmica normal de qualquer relacionamento de casal”, relatou.
“Eu também tive um casamento longo, sem abusos físicos nem morais, mas patrimoniais. E, educada a não deixar o marido se sentir inferior a mim eu, que era a provedora da família, suportava a carga em silêncio e achava que tinha de seguir assim. É a lógica do patriarcado, algo que já não cabe nos tempos atuais, em que muitas mulheres sustentam marido e filhos. Deixei de amá-lo e de ter felicidade no casamento, mas não tinha coragem de me divorciar, por medo de ficar só, medo de perder a proteção mas, que proteção?”, analisou uma terceira servidora do TJGO. (Texto: Patrícia Papini / Fotos: Wagner Soares– Centro de Comunicação Social do TJGO)