
A série “Memórias do Judiciário goiano”, organizada pela Comissão de Memória e Cultura e Diretoria de Comunicação do TJGO, homenageia o desembargador Joaquim Henrique de Sá, em texto de autoria do desembargador Itaney Campos.
Joaquim Henrique de Sá, pirenopolino de quatro costados, faleceu nesta semana, no dia de Pentecostes (24), quando se comemorava em sua cidade natal a festa do Divino Espírito Santo, uma festividade popular e religiosa, cuja tradição remonta a mais de um século. Ele era devoto do Divino e admirador dos eventos festivos, inclusive a batalha dos mouros contra os cristãos, as pastorinhas e as retretas da Banda Fênix, além das demais festas da ocasião.
Era muito cioso das tradições meiapontenses. Joaquim Henrique foi uma grande personalidade da vida pública goiana. Exerceu o cargo de procurador de Justiça, para o qual foi provido em 1969, integrando o Ministério Público Estadual, após galgar as etapas da Promotoria de Justiça (1959/69). Foi eleito e nomeado como desembargador, no ano de 1979, vindo a integrar a Primeira Câmara Criminal, onde se manteve ao longo de sua trajetória no Judiciário, salvo os períodos em que esteve em cargos incompatíveis.
Exerceu também o cargo de presidente do Tribunal Regional Eleitoral no ano de 1989, quando organizou a primeira eleição para o recém-criado Estado do Tocantins (prefeito e vereadores, governador e vice-governador e deputados). Foi corregedor-geral da Justiça no biênio 1995/96, atuando na Comissão de Negociação que lidou com os presidiários rebelados que tornaram reféns o presidente do TJGO, desembargador Homero Sabino, e vários juízes e servidores públicos.
Na sequência, no período de 1999 a 2000, desempenhou o alto cargo de presidente do Tribunal de Justiça goiano, destacando sua gestão pelo desenvolvimento do setor de informática e construção e reformas de fóruns do interior do Estado. Na área social, sua esposa Sone Maria de Pina realizou profícuas campanhas em benefício do Hospital das Clínicas e do Hospital de Doenças Tropicais (HDT), de Goiânia.
Após 46 anos de trabalho como julgador, Joaquim Henrique aposentou-se, valendo lembrar que chegou a exercer interinamente a governadoria do Estado, por gentil deferência do governador Marconi Perillo, que licenciou-se para viagem, juntamente com o presidente da Alego, em setembro de 2003.
Após uma vida realizadora, culminante na aposentadoria digna e merecida, por tempo de serviço, Joaquim Henrique não se deitou em berço esplêndido. Continuou na luta: aceitou o cargo de ouvidor-geral do Estado, por força de nomeação do amigo governador, que, por quatro vezes, exerceu a chefia do Executivo goiano. E não apenas isso. Ao recolher-se ao seu solar colonial, na Avenida Aurora, em Pirenópolis, com a companheira da vida inteira, Sone Maria de Pina, com quem teve as filhas Teresa Cristina e Débora di Sá, a primeira, quadro importante do TJGO, e a segunda, cantora popular reconhecida no cenário artístico goiano, Joaquim Henrique voltou a integrar plenamente o seu meio social, frequentando as cerimônias religiosas e os eventos sociais e políticos.
Ele fora seminarista durante nove anos, em sua adolescência e juventude (em Bonfim/ Silvânia), e participara do coral da igreja. Gostava de dedilhar um violão e cantar as canções folclóricas e regionais de sua vetusta Pirenópolis, cidade originária da vila das Minas de Nossa Senhora do Rosário da Meia Ponte, agora prestes a completar 300 anos de existência.
Em Pirenópolis, doutor Joaquim era para os mais íntimos, e são muitos os íntimos, dado o frondoso ramo familiar, o Quincas, que foi um craque do futebol (meia esquerda) local e cantor de seresta e violonista. Sempre discreto e amável, como era do seu feitio. Pois no último domingo (24) estive no seu velório, que ocorreu no Fórum que leva o nome do seu pai, o oficial de Registro José Joaquim de Sá, na rua Direita. Enquanto o seu corpo era levado para o cemitério e as pessoas do cortejo cantavam “Uma canção por Pirenópolis”, a preferida do desembargador, foguetes pipocavam nos ares, pela festa do Divino, e mascarados representando mouros e cristãos, em seus cavalos enfeitados de azul e vermelho, galopavam pela cidade, com os sons dos polaques e dos cascos martelando o piso de pedra das ruas. O quadro urbano, triste e festivo, no final de tarde, combinava bem com o gosto do desembargador, amante das tradições religiosas e folclóricas centenárias de sua cidade natal. Foi-se um grande homem e um coração sensível: o doutor Quincas de Sá.
desembargador Itaney F. Campos