
O Tribunal de Justiça do Estado de Goiás, por meio das coordenadorias de Igualdade Racial e Estadual da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar, realizou nesta quarta-feira (29), na Sala Multiuso da Escola Judicial (Ejug), a roda de conversa “Esperanças – Mulheres Contam Suas Histórias”. A iniciativa foi idealizada em homenagem ao Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, comemorado no último dia 25 deste mês.
Conduzido pela servidora da Coordenadoria da Mulher, assistente social Morgana Rodrigues dos Santos, o encontro foi voltado exclusivamente para servidoras, terceirizadas e estagiárias do TJGO. “A ideia é ficarmos à vontade para trocar experiências, desabafar, adentrar assuntos às vezes muito íntimos, delicados e amargos, em busca de nos unirmos umas às outras naquilo que temos em comum: o fato de sermos mulheres negras”, disse.
As participantes assistiram a trechos de episódios da websérie “Minha Existência é Resistência”, produzida pelo Diretoria de Comunicação Social (Dircom) do TJGO, que retratam relatos, histórias de vida e dados sobre mulheres negras, que segundo estatísticas ocupam o primeiro lugar no ranking de vítimas de feminicídio e violência doméstica e familiar e recebem salários menores que os de mulheres brancas.
No centro da roda foi montado uma espécie de “tapete” com imagens de mulheres negras que se destacaram em suas áreas de atuação, em nível nacional, como cantoras, escritoras, atrizes, jornalistas, historiadoras, atividades, entre outras. Durante a atividade, as participantes foram convidadas a se apresentar e a se sentirem à vontade para, caso quisessem, relatarem suas histórias de vida enquanto mulheres negras, lançarem questionamentos ou ideias e discutirem formas de fazer frente aos desafios comuns ao grupo.

Desabafos
À medida que as primeiras participantes falaram, outras demonstraram sentir mais tranquilidade para expor suas vivências, o que propiciou uma rica interação. Foram, assim, feitos relatos impactantes sobre experiências humilhantes, mas também sobre processos de amadurecimento e adoção de atitudes para fazer frente a posturas racistas.
Pelo menos três integrantes da roda falaram da questão estética e da pressão vivida por não seguirem o padrão de beleza imposto pela sociedade. “Passei anos alisando o cabelo porque se dizia que não era muito profissional se apresentar ao trabalho com o cabelo como é o nosso. Quando isso passou e o nosso tipo de cabelo começou a ser melhor aceito socialmente, senti uma liberdade muito grande de ser quem sou”, comentou uma delas.
Outra presente também afirmou ter alisado os cabelos durante muitos anos sem, no entanto, jamais se sentir bem. “Não adiantava ter um cabelo liso se meu nariz continuava sendo de batata, se minha boca era carnuda demais. Então a certa altura entendi que eu tinha de me amar como sou e que não havia nada de errado nisso”, relatou.
Pressuposição errada
Outra participante narrou que, após passar em um concurso público para vaga de técnica de enfermagem, se apresentou na instituição para tomar posse e, assim que a viu, o responsável por receber os aprovados logo presumiu que ela havia sido aprovada para um cargo em serviços gerais e lhe pediu, antes mesmo de perguntar seu nome, que começasse a limpar a sala porque a moça da limpeza havia quebrado o braço naquele dia.
“Não hesitei. Para mim, todo trabalho é digno. Fui logo procurar a vassoura, limpei a sala, fiz outras coisinhas e, de repente, ele veio apavorado, me pedindo perdão e implorando para não denunciá-lo, porque havia acabado de ver minha documentação e perceber que eu havia sido aprovada para técnica de enfermagem. Claro que perdoei e não denunciei, mas fiz questão de dizer que, além disso, eu era também formada em Pedagogia e História. Fiz isso porque entendo que podemos ser brandos, mas devemos nos posicionar e, francamente, acredito que isso pode ter sido bom para ele”, relembrou.
“A verdade é que nossas ancestrais foram ensinadas a se calarem. Desde as senzalas. E, apesar das evoluções históricas ocorridas, ainda seguimos com traços de comportamento herdados ao longo das gerações. Por isso, ter um ambiente como este para falarmos à vontade, em pleno TJGO, é profundamente curador”, pontuou uma participante, que irrompeu em lágrimas ao término da roda de conversa, agradecendo a oportunidade de ouvir e ser ouvida por mulheres que vivenciam problemas parecidos.
O TJGO foi o primeiro tribunal estadual do Brasil a instituir sua própria Coordenadoria de Igualdade Racial. Durante a atividade, foram apresentados todos os projetos e ações que vem sendo realizados pela instituição relacionados à causa.

(Texto: Patrícia Papini / Fotos: Wagner Soares e Luís Ricardo – Diretoria de Comunicação Social do TJGO)