Uma demonstração de senso de coletividade marcou a construção da nova Casa de Prisão Provisória (CPP) de Rio Verde, resultado da união do Poder Judiciário e da comunidade do município, localizado na região Sudoeste do Estado e a 230 quilômetros de Goiânia. Dos quase mil sacos de cimentos usados para erguer o edifício, cinco foram doados pelo aposentado Joel Evangelista Santos, de 70 anos. A obra, inaugurada nesta segunda-feira (25), é exemplo de que a boa vontade pesa mais que o dinheiro quando o assunto é cidadania.
O aposentado ouviu em um programa de rádio que ia ser construída a nova CPP da cidade e que precisava que a população contribuísse com qualquer ajuda. “Eu lembro que era bem cedinho. Acordo todos os dias às 5 da manhã, faço meu café e já ligo o rádio. O fato me chamou a atenção porque eu já sabia do problema que tinha, porque a atual CPP fica no Centro da cidade. Aí lembrei que o saco de cimento estava de promoção. Peguei 100 reais e o dinheiro deu para comprar cinco sacos. Comprei e, na mesma hora, eu já fui na rádio para entregar”, lembrou.
Ao olhar para a nova CPP e andar pelos corredores e celas, os olhos dele enchem de lágrimas. “Ficou bonito, muito bonito mesmo. Tá arrumadinho. Eu fico emocionado de ter feito parte disso porque eu sei que todo mundo vai ganhar”, disse. O idoso Mora com a esposa e os dois sobrevivem com um salário mínimo. Ele trabalhou como pedreiro a maior parte de uma vida e já tem alguns anos que conseguiu se aposentar. “O nosso dinheirinho dá para gente comer e ainda para ajudar, graças a Deus”, falou.

Sem saber ler e escrever, o idoso é uma demonstração viva de que, se cada um fizer sua parte, tudo se torna possível. “Eu sei que quase todo mundo pode ajudar. Digo quase, porque tem gente que não tem o que comer, mas quase todos podem ajudar. Toda ajuda é bem-vinda”, destacou. “Aqui em Rio Verde tem muita gente que pode ajudar. Pode ser com um saco de cimento, uma lata de areia ou um dia de serviço”, completou.
Joel Mora a quatro quilômetros de distância da nova CPP e conta que alguns moradores da região foram contra a transferência da nova unidade. “Eles não queriam que viessem para cá porque tinham medo dos presos fugirem e ir para as casas deles”, contou. “Eu falava é que vai trazer é mais segurança. Vai ter toda hora polícia aqui perto. E que preso vai fugir para perto? Eles vão é para longe”, relatou.
Um dia depois da inauguração é que Joel andou por todo o prédio. Observou cada detalhe, falou da encanação, dos cadeados e entrou nas celas. O universo prisional para ele era uma realidade distante e 'feia'. Só tinha visto uma prisão pela televisão, mas agora ele garante que entende um pouco mais do assunto. “Aqui, eles não vão ter como fugir. Olha esses cadeados e essas travas, a mão não alcança. Agora é cuidar para que não fique um lugar feio como os que a gente vê nos jornais e escuta falar nos rádios. Tudo o que o homem constrói, o homem pode destruir ”, salientou.

Reeducandos
O esforço veio também de dentro da penitenciária. No total, 15 reeducandos do regime fechado trabalharam durante meses na fábrica de tijolos, que fica também dentro da unidade de Rio Verde. Os presos produziram cerca 40 mil blocos de concreto que foram usados para que a nova CPP fosse levantada.
Os cimentos doados por Joel foram usados para a fabricação dos blocos que os reeducandos do regime semi-aberto ajudaram a construir. “Estamos pagando pelo que fizemos, com o trabalho. É uma oportunidade para quem está aqui dentro”, falou um dos presos que trabalhou na fábrica de tijolos.

“A iniciativa só foi possível, segundo o idealizador do projeto da construção do presídio, Juiz Eduardo Álvares de Oliveira, da 3ª Vara Criminal de Rio Verde, porque formou-se um pacto de cooperação contra o crime e a violência. “E esse é o grande exemplo que a cidade de Rio Verde oferece; o exemplo de que, com união e objetivos definidos, é possível alterar o curso dos fatos, o exemplo de que podemos, sim, construir uma sociedade mais segura e mais preparada para o futuro”, salientou. (Texto: Arianne Lopes / Fotos: Aline Caetano - Centro de Comunicação Social do TJGO)