
A cultura, as tradições, as potencialidades turísticas, as conquistas e os desafios do povo Kalunga foram apresentados por lideranças quilombolas aos novos juízes e juízas, nesta quinta-feira (23), em reunião na comunidade do Engenho II. A ação integra a programação do Projeto Raízes Kalungas, idealizado pelo presidente do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJGO), desembargador Carlos França, e que nesta semana leva os 44 magistrados aprovados no 58º Concurso para Juiz Substituto do Estado de Goiás a Cavalcante. A iniciativa, elogiada pelos novos magistrados, faz parte do Curso de Formação Inicial para os Novos Magistrados realizado pela Escola Judicial (Ejug).
Na oportunidade, o juiz auxiliar da Presidência, Reinado Dutra, discorreu sobre a importância da atividade para que os magistrados conheçam de perto a realidade da população quilombola. ”Pelo relato dos próprios moradores, os magistrados conseguirão ter o conhecimento de como é a vida da população quilombola, os direitos que pleiteiam, os desafios impostos diariamente, e, assim, como agentes públicos estatais, poder colaborar para encontrar soluções”, pontuou, ao agradecer todos os envolvidos na programação e, em especial, aos Kalungas. “Toda vez que participo de qualquer atividade nas comunidades saio com mais conhecimento, porque aprendo com o relato de vocês, com o exemplo que repassam e força que vocês têm”, ressaltou o Magistrado.

Rica troca de experiências
O diretor do Foro da Comarca de Cavalcante, juiz Leonardo de Souza Santos, destacou que a atividade dentro da comunidade proporciona uma rica troca de experiências, “em que os magistrados têm a oportunidade de conhecer o modo com que as comunidades se organizam coletivamente, as atividades de defesa do território e como o Projeto Raízes Kalungas tem atuado no sentido de aproximar o Poder Judiciário dos moradores da região”.
Experiência única
A promotora Úrsula Catarina Fernandes, titular da Promotoria de Cavalcante, participou de forma virtual, parabenizou o TJGO pela iniciativa e ressaltou que os novos magistrados “terão uma experiência única em conhecer a realidade da população quilombola, que apesar de enfrentar muitas dificuldades, é feliz e hospitaleira”, ressaltou a promotora.
O prefeito de Cavalcante, Vilmar Kalunga, frisou sobre os aspectos positivos do Projeto Raízes Kalungas e afirmou que os Pontos de Inclusão Digital (PIDs) “têm facilitado a vida dos moradores de diversas comunidades que antes enfrentavam longas distâncias para resolverem suas demandas jurídicas”.
“Olhar mais próximo da nossa gente”
Durante a exposição, as representantes dos sete Pontos de Inclusão Digital (PIDs) instalados no território Kalunga, nos municípios de Cavalcante, Teresina de Goiás e Monte Alegre de Goiás, apresentaram os principais serviços disponibilizados à população. Yunara da Silva Santos, servidora do PID de São José, fez um relato emocionante de como a comunidade passou a ver o Poder Judiciário com o desenvolvimento do Raízes Kalungas. “Tem sido uma honra fazer parte desse projeto.Os PIDs têm trazido mudanças muito positivas e nossas comunidades estão vendo o Poder Judiciário com um olhar mais pessoal. Ver juízes caminhando conosco, andando a pé por longas distâncias, é algo que nunca poderíamos imaginar. Quando um Magistrado senta numa mesinha em uma casa de pau a pique para conversar com a população, o pronome de tratamento deixa de existir. É um olhar mais próximo da nossa gente”, observou
Demandas e conquistas
A imersão cultural contou com a participação de diversas lideranças da comunidade quilombola, que abordaram sobre a educação na comunidade, a escassez de transporte escolar, as oportunidades para a juventude, a regularização fundiária, o meio ambiente e o turismo.
Entre os que expuseram suas experiências, o professor kalunga Adão Fernandes; as lideranças quilombolas, como dona Daínda Santos, Damião Moreira, Tico Kalunga, Jorge Moreira, dona Ester Fernandes, Adriano Paulino, e as jovens Alciléia ConceiçãoTorres e Bárbara Rodrigues; a advogada da Associação Quilombo Kalunga (AQK), Andreia Gonçalves; e o presidente da AQK, Carlos Pereira, que finalizou a exposição da comunidade ao falar sobre os desafios da comunidade Kalunga. “Enfrentamos muitos problemas, como a grilagem e a constante luta pela regularização do território. Mas, essa aproximação do Poder Judiciário por meio do Raízes Kalungas, tem fortalecido nosso território”, destacou.
Filipe Sancho, um dos novos magistrados, elogiou a iniciativa do TJGO. “Tem sido uma oportunidade ímpar participar desse projeto fantástico que aproxima o Poder Judiciário do cidadão. Iniciamos a carreira entendendo o nosso papel junto às comunidades que tanto precisam de nossa atenção”, pontuou.
A nova juíza Beatriz Scotelaro também gostou da experiência vivida com a comunidade Kalunga. “Acredito que foi um momento muito enriquecedor para todos os juízes. Vivenciando um pouco da história, escutando as demandas pessoalmente, a forma com que eles vivem, e as dificuldades que enfrentam, nos tornamos mais capacitados para conseguir oferecer a justiça adequada”, avaliou. (Texto: Karinthia Wanderley/ Fotos: Wagner Soares- Centro de Comunicação Social do TJGO) Veja galeria de fotos