
Dando sequência à publicação da série “Memórias do Judiciário de Goiás”, composta por notas com textos e fotos que resgatam marcos importantes da história do Judiciário goiano, idealizada pela Comissão de Cultura e Memória do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJGO) em celebração ao Mês da Memória do Poder Judiciário, o desembargador Itaney Campos, que também é escritor e membro da Academia Goiana de Letras (AGL), reverencia, no artigo abaixo, a memória do ex-presidente do TJGO, desembargador Dario Délio Cardoso, no terceiro conteúdo da série.
Um jurista para a história: Dario Délio Cardoso
Veio em muitíssima boa hora a cobrança feita pelo CNJ, no sentido de se implementarem medidas de cultivo, valorização e preservação da memória do Judiciário nacional, instituindo, ademais, o dia da Memória do Poder, no caso, 10 de maio. Uma grande personalidade da história do judiciário goiano tem sido olvidado pelos contemporâneos, confirmando a assertiva de que a nossa memória é curta, não obstante a riqueza do nosso passado. Por isso, já não era sem tempo uma normativa que orientasse o Poder judiciário a prestigiar a sua experiência histórica e cultivar a sua memória, parte indissociável da cultura brasileira.
Essa regra de ouro surgiu com a edição da resolução do Conselho Nacional de Justiça, que, em boa hora, despertou a instituição judiciária para a necessidade do reconhecimento sistemático dos valores construídos por sua experiência histórica, cuja face mais visível acha-se representada no Acervo documental, iconográfico, mobiliário e indumentário. Afinal, como já se disse, quem não conhece o seu passado está fadado a repetir os seus erros, valendo lembrar, com Febvre, que a compreensão do presente deriva do conhecimento do passado histórico.
Nesse afã, o resgate das realizações dos protagonistas da instituição, ao longo do tempo, é uma das ações de resgate da memória. Nesse Desiderato é que trago a lume a figura e a trajetória de uma das figuras de relevo no cenário jurídico e cultural goiano na década de 1950. Quero referir-me à figura do intelectual e jurista Dario Delio Cardoso, dublê de professor universitário e político, que por mais de oito anos presidiu o tribunal de justiça de Goiás e também foi um dos próceres da Justiça Eleitoral goiana, promovendo a instalação, em Goiânia, do Tribunal Regional Eleitoral.
O jurista é natural da cidade de Corumbá de Goiás, onde nasceu em 10 de agosto de 1899, nos albores da República. Nessa mesma vila, de origem minerífera, nascera duas décadas antes, o poeta e comerciante Erico Curado, pai do notável escritor Bernardo Elis, único goiano a integrar a Academia Brasileira de Letras, cuja obra ficcional obteve repercussão nacional. Corumbá, que preservou seu perfil arquitetônico colonial, foi também o berço do novelista J.J. Veiga e do jornalista e poeta Benedito Odilon Rocha, genitor dos conceituados acadêmicos Hélio Rocha e jornalista Reinaldo Rocha, de saudosa memória.
Em Pirenópolis, a velha Meia Ponte, fez os estudos primários, sob a batuta do professor e maestro Joaquim Propício de Pina. Prosseguiu os estudos na cidade de Goiás, antiga Vila Boa, capital do Estado, frequentando o vetusto Liceu de Goiás. Na cidade de Belo Horizonte realizou os estudos de nível superior, bacharelando-se em Ciências jurídicas e sociais, no ano de 1927. Regressando ao Estado natal, dedicou-se ao magistério, ofício de que nunca desertou ao longo da vida, a par do exercício da advocacia.
Nos anos de 1928 e 1929, foi designado professor das cadeiras de Português da Escola Normal do Estado e História da Civilização, do Liceu de Goiás. Foi então nomeado professor ( Direito Público e Constitucional) e Diretor, em 1933, da Faculdade de Direito do Estado. Convocado a assumir a Procuradoria Geral do Estado, em 1934, quando já se transferia a capital para a cidade de Goiânia, ainda em construção, aceitou a incumbência , até que veio a ser escolhido e nomeado para o cargo de desembargador do Superior Tribunal de Justiça do Estado, em 19 de outubro de 1934. Casou-se no início de 1929 com Antônia Nunes Cardoso, de cujo matrimônio advieram os filhos Nerione, Darione e Delcione Nunes Cardoso.
O jovem jurista assumiu a presidência do Tribunal de Justiça do Estado, exercendo o mandato presidencial por oito anos. Nesse período integrou o Tribunal Regional Eleitoral de Goiás, cuja presidência também exerceu ( 1938/1945), cabendo-lhe a honrosa tarefa de organizar e instalar a Justiça eleitoral de Goiás, quando esta foi restabelecida. Aposentou-se, após longa carreira no serviço público, em 1945.
Nessa quadra, foi eleito Senador Federal, assumindo o mandato em 2 de fevereiro de 1946, integrando, nessa qualidade, a Assembleia Nacional Constituinte, tendo sido um dos signatários da Constituição de 1946. Exerceu a presidência da importante Comissão de Constituição e Justiça naquela Casa parlamentar, onde também foi líder do Governo. Cumpriu ainda mandato de deputado federal, por Goiás, eleito em 1961, pelo PSD. A efervescência do início dos anos de 1960, representada sobretudo pelo movimento e repercussões da implantação de Brasília, a capital da esperança, pelo governo JK, contou no seu cenário, como importante protagonista, a personalidade atuante do jurista e político Dario Délio Cardoso.
(desembargador (Itaney Campos)