
Dando continuidade à publicação da série “Memórias do Judiciário de Goiás”, iniciativa da Comissão de Memória e Cultura do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJGO), composta por textos e fotos que resgatam marcos importantes da história do Judiciário goiano, o desembargador William Costa Mello assina artigo sobre o ex-presidente do TJGO, João Canedo Machado.
Nascido no coração de Morrinhos, entre o vento dos cerrados e o canto das cigarras, João Canedo Machado não foi apenas um homem da lei — foi um construtor de pontes entre o direito e a dignidade humana. Em sua caminhada pela magistratura, passou por comarcas como Ipameri, Rio Verde e Itumbiara. Cidades que viram nele não só um Juiz, mas um guardião do justo. Em cada decisão, pesava não apenas os autos, mas também os silêncios, os gestos e as dores ocultas de um povo que muitas vezes não sabia se fazer ouvir.
Nos fóruns humildes do interior goiano, onde o tempo parecia correr mais devagar, Canedo Machado plantou respeito. Entre papéis e processos, ele escutava — não apenas com os ouvidos, mas com o coração. Ali, a toga não era um símbolo de poder, mas de serviço.
Quando chegou ao Tribunal de Justiça de Goiás, manteve o olhar firme e sereno, a mesma fé no ofício. Seus votos eram como ele: equilibrados, profundos, humanos. Falava pouco, mas dizia tudo — e dizia bem.
À frente da Escola Superior da Magistratura do Estado de Goiás (ESMEG), exerceu com galhardia a missão de formar e inspirar novos magistrados. Sob sua condução, a Escola transformou-se em verdadeiro celeiro de pensamento jurídico e humanista. Canedo Machado não apenas promoveu cursos e treinamentos — cultivou valores. Incentivou o estudo do direito com alma, levando a filosofia e a ética para o centro da formação judicial. Foi mestre sem ostentação, guia sem imposição, arquiteto de consciências.
Exerceu a presidência do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás entre 1º de janeiro de 1986 e 1º de janeiro de 1988. Nesse biênio, foi gestor e estadista institucional, implementando avanços como a modernização da corte, o fortalecimento da transparência administrativa e a valorização dos servidores.
Participou de comissões, incentivou boas práticas e promoveu o equilíbrio entre inovação e tradição. Mas sua maior reforma foi visível apenas nos interiores — aquela que operava nas consciências, nos valores, no exemplo.
Nos corredores do tribunal, sua presença era discreta, mas imponente. Como se a ética tivesse forma, e a forma fosse a dele. Era um homem que andava devagar, mas ia longe.
Aos colegas, oferecia escuta. Aos servidores, respeito. Aos advogados, acolhimento. Aos jurisdicionados, esperança. E ao tempo, ofereceu sua integridade — como quem oferece um presente que não se vende nem se perde.
João Canedo Machado entendeu que julgar não é apenas aplicar a lei. É também abraçar a condição humana, com seus acertos e falhas, com seus gritos e silêncios. E por isso, hoje, mesmo ausente, sua voz ainda ecoa pelos salões da Justiça goiana — como um sussurro de retidão que jamais se cala.
desembargador William Costa Mello