
Santina Cezário dos Santos vive no Vão do Moleque e há 15 anos vende geleias, frutos típicos do Cerrado, farofa de grãos e frutas da região a turistas que chegam ao local para visitar as Cachoeiras Guardião, Correntinha e Correntão. Ela é uma das descendentes quilombolas que serão beneficiadas com duas obras inauguradas nesta quarta-feira (24) pelo presidente do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJGO), desembargador Leandro Crispim.

As verbas oriundas de prestação pecuniária repassadas para a Associação Quilombola Kalunga (ACK) e Associação do Vão do Moleque viabilizaram a construção de um Centro de Apoio ao Turista no Complexo do Prata, para exploração na área que reúne sete cachoeiras, e o Armazém Comunitário Vão do Moleque, que permitirá a venda da produção agrícola e artesanal das 300 famílias que vivem no local.

“Agradeço a comunidade kalunga por nos conceder essa oportunidade de podermos ajudar, fazer coisas boas. A gente está fazendo uma plantação aqui, que vai ser uma colheita para o futuro. Que este local se transforme em uma comunidade ecológica, que curte a natureza e aproveite essa riqueza que está aí, que vai gerar muita receita, para ajudar no desenvolvimento de toda a comunidade kalunga”, afirmou o presidente Crispim.

As obras inauguradas vão beneficiar cerca de 8.400 pessoas que vivem no território. A área do Complexo do Prata, que vinha sendo ocupada por um particular foi, por meio de decisão da Justiça Federal, devolvida à comunidade kalunga, que agora passa a explorar o turismo e utilizar a receita em benefício das comunidades. O Armazém, por sua vez, fomentará diretamente a economia de pelo menos 300 famílias que vivem na região do Vão do Moleque, a maior comunidade quilombola Kalunga.

“Tanto o turismo, quanto extrativismo, quanto a produção de agricultura familiar vão ser incrementados. E isso ganhando um nicho da venda dos produtos Kalunga, a venda do turismo, dos conhecimentos. Acho que isso para nós, enquanto povo Kalunga, é um dos maiores ganhos históricos que já tivemos, que é ter estrutura para nós, dentro dos nossos espaços”, afirmou Carlos Pereira, que agradeceu a todos os envolvidos nas conquistas do Projeto Raízes Kalungas – Justiça e Cidadania.

Ele recebeu hoje do presidente do TJGO e do corregedor-geral da Justiça, desembargador Marcus da Costa Ferreira, o Prêmio Inovação, concedido pelo Conselho Nacional de Justiça ao projeto, que ficou em primeiro lugar na categoria Impacto Social e com o segundo lugar na categoria Serviços Judiciários Inovadores para os Usuários.
“O projeto Raízes Kalungas tem a força que tem um ímã, de atrair coisas boas, bons parceiros. O Poder Judiciário sozinho, aqui, não faria absolutamente nada do que está acontecendo, mas ele está tendo a capacidade de juntar próximo a si todos aqueles que têm condição, na sua expertise, de conseguir essa finalidade maior, que é vermos o poder da comunidade se autogerir, se autodeterminar”, afirmou o corregedor.

Para o coordenador do Projeto Raízes Kalungas, Juiz auxiliar da Presidência Reinaldo Dutra, o CAT e o Armazém são a concretização de sonhos que a comunidade kalunga já acalentava faz algum tempo e que puderam ser iniciados dentro do projeto. “Surgiu a ideia de apresentar ao doutor Fernando Samuel uma proposta para que a própria associação construísse o CAT e o Armazém e conseguisse o fortalecimento justo para explorar atividades que antes eram feitas por terceiros”, afirmou.

Responsável pela gestão das verbas pecuniárias que possibilitaram as construções do CAT e do Armazém, o juiz Fernando Samuel, da 1ª Vara de Execuções Penais, afirmou que esses recursos tiveram uma destinação justa. “É o que a gente entende como modelo ideal: alguém que faz algum mal para a sociedade, reembolsa a sociedade com esse recurso e isso converte para a própria comunidade em benefícios, como esses que vemos aqui hoje”, disse o Magistrado, que fez questão de agradecer o suporte da promotora Patrícia Guimarães.
Para a diretora do Foro da Comarca de Cavalcante, juíza Isabela Rebouças, as obras são uma oportunidade de desenvolvimento para o povo kalunga. “Esse valor que vocês precisam entender. Esse chão que a gente pisa, esse teto que está aqui, pertence a vocês e é feito para que essa comunidade se desenvolva, que ser organize”, ressaltou.

Presidente Leandro Crispim entrega medalhas a parceiros do projeto

Durante a solenidade de entrega do Armazém Comunitário no Vão do Moleque, o presidente do TJGO, Leandro Crispim, homenageou parceiros que têm contribuído de forma excepcional com o Projeto Raízes Kalungas, nesse um ano e quatro meses de existência.
Receberam a medalha de Honra ao Mérito o presidente da AQK, Carlos Pereira; o presidente da Associação Vão do Moleque, Onair José Dias; o presidente da Associação do Engenho, Adriano Paulino; líder Kalunga Damião Pereira dos Santos; a arquiteta responsável pelas obras do CAT e Armazém, Lana Alves; a promotora de justiça de Cavalcante, Úrsula Catarina Fernandes, Alpiniano do Prado Lopes, procurador-chefe do Ministério Público do Trabalho em Goiás; juiz Fernando Samuel, as assessoras do juiz auxiliar da Presidência, Reinaldo Dutra, Márcia Lyssa Barbalho da Costa e Priscila Aparecida Ferreira Ramalho, o coordenador do projeto Raízes Kalungas, juiz auxiliar da Presidência, Reinaldo Dutra e o corregedor-geral da Justiça, desembargador Marcus da Costa Ferreira. O presidente Leandro Crispim foi surpreendido ao receber, ele próprio, a honraria entregue pelo corregedor e pelos líderes kalungas.

“Quando se joga uma semente numa terra boa, essa semente vai produzir. Vejo que todos do Tribunal de Justiça estão engajados nesse projeto e, eu que não pertenço ao TJ, mas que tenho a alegria de ter sido convidado, quando vejo a comunidade com tanta empolgação, isso nos traz uma certeza que realmente o semeador semeou a semente em terra boa e que ela trará bons frutos”, afirmou Alpiniano Prado, um dos homenageados.

Ao agradecer a medalha, a promotora Úrsula afirmou que espera que os espaços inaugurados, em especial o Armazém, “sejam espaços de empoderamento, não só de toda comunidade, mas em especial das mulheres. E quero voltar minha fala às mulheres vítimas de violência, de qualquer tipo de violência. Esse espaço, assim como o PID, é um espaço de empoderamento e espero voltar aqui e ver esse armazém funcionando, as mulheres trazendo seu doce, a conserva de pequi. O cerrado é rico e temos diversas riquezas que podem ser aproveitadas”, afirmou.

Também agraciado com a honraria, o presidente da Associação Vão do Moleque, Onair José Dias,
agradeceu ao presidente Leandro Crispim “e a todos que ajudaram a construir essa obra. É um projeto de desenvolvimento. E vai funcionar de acordo com o que a comunidade quer”, disse.
União

O prefeito de Cavalcante, Vilmar Kalunga também elogiou a união de todos em prol da população quilombola e enalteceu a parceria do Tribunal e de todos os parceiros do Raízes Kalungas. “O trabalho é esse, o coletivo, temos de seguir unidos, juntos. O nosso sucesso está na nossa coletividade. “E graças a essa união estamos conquistando benefícios”.
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