
Como parte da programação da Semana de Arte e Sabedoria Jurídica Negras (Sawabona), o terceiro dia do evento foi dedicado a palestras e oficinas sobre relações étnico-raciais, promovidas pela Coordenadoria de Igualdade Racial do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJGO). O encontro, realizado na Escola Judicial de Goiás (Ejug), integra as ações do TJGO para a promoção da equidade racial no Poder Judiciário, em consonância com as diretrizes do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
Na manhã desta quarta-feira (12), especialistas em temáticas étnico-raciais compartilharam com as equipes interprofissionais do Judiciário goiano reflexões sobre as desigualdades entre raças e estratégias de enfrentamento ao racismo. Para dar início à agenda de atividades, a pós-doutora em Serviço Social na Educação (Portugal) e assistente social, Sarita Amaro (foto abaixo), ministrou a palestra “A Produção do Racismo e sua Desconstrução (Antirracista) nas Relações Sociais, Familiares e Profissionais”.

Na ocasião, foram apresentados recortes sociais de pessoas negras, estereótipos, lutas antirracistas e legislação na temática. “Estar aqui hoje, nesse evento interdisciplinar, é extremamente importante. Essa casa institucional representa o lugar de encontro dos nossos anseios como movimento social negro. Essas lutas não são individuais e pontuais. Precisamos desconstruir a retórica de uma sociedade que nos vê, através de estereótipos, e que nos impõe categorias ao longo de gerações”, disse.
Referência na questão étnico-racial nas instituições públicas e autora de mais de 50 livros no campo dos direitos sociais, Sarita Amaro também abordou que muitas das questões estão pautadas na cor e que é preciso ter, em diversos contextos do Judiciário, o olhar diferenciado das equipes interprofissionais. “É necessária essa perspectiva racial para assessorar processos em que muitas das pessoas negras estão justamente em sua maioria, como nos casos de adoção, abrigos e no sistema penitenciário”, complementou, ao tratar do aparelhamento do Judiciário na perspectiva racial.

As palestras foram mediadas pela diretora da Divisão Interprofissional Forense da Corregedoria-Geral da Justiça do TJGO, Verônica Freire (foto acima). As equipes interprofissionais são formadas por psicólogos, assistentes sociais e pedagogos, assessorando a Primeira Instância, quando solicitado.
Na sequência, o tema “Olhares Cruzados: Psicologia e Interseccionalidade no Sistema de Justiça” foi conduzido pela doutora em Psicologia Clínica e Cultura da Universidade de Brasília (UNB), Anna Karollina Silva Alencar. Psicóloga e especialista na temática racial, ela explicou o conceito de racismo e a necessidade de trazer esse olhar com perspectiva racial dentro das práticas do sistema Judiciário pelas equipes interprofissionais, além de levar o público a pensar sobre algumas questões. “Por que a porta de entrada do sistema prisional é tão grande e a porta de saída tão pequena para as pessoas negras? Se as crianças negras em processo de adoção são maioria, por que reinserir esses meninos e meninas nas famílias é uma dificuldade? Quem é a maioria nesses locais? Precisamos observar mais”, disse.

Anna Karollina reforçou que o trabalho dela, como psicóloga e especialista na temática racial, é trazer inquietações. “E o grupo de mães, em processo de luto, porque perderam os seus filhos por violência policial e do Estado. O que fazer? Esses lugares nos trazem reflexões do racismo no Brasil e nos mostram como é necessário questionar o quanto devemos pensar em práticas antirracistas, contra o sistema de opressão e que atravessam a interseccionalidade da etnia, gênero, raça e território”, acrescentou.
Oficinas voltadas à educação antirracista
No período da tarde, a programação se concentrou nas oficinas orientadas por profissionais do próprio TJGO e de integrantes da equipe interprofissional da 2ª Região. Durante as práticas, os participantes puderam compartilhar experiências e compreender o exercício de vivências na desconstrução de processos de discriminação racial e a necessidade do enfrentamento ao racismo dentro das unidades judiciárias.

A assistente social Dorivânia Amaral de Oliveira e o psicólogo Cláudio Henrique Pedrosa estiveram à frente da atividade. Nas oficinas, combinaram momentos expositivos, dinâmicas em grupo e estudos de caso baseados em situações reais. A assistente social frisou que a oficina de relações étnico-raciais busca apresentar conceitos básicos de letramento racial. “A ideia é estimular a reflexão crítica sobre racismo institucional para praticarmos, identificarmos, prevenirmos e combatermos práticas discriminatórias no exercício profissional, acentuando uma escuta cada vez mais qualificada”, revelou.

(Texto: Karineia Cruz / Fotos: Edmundo Marques – Centro de Comunicação Social do TJGO)