
A Escola Judicial (Ejug), em parceria com a Comissão Permanente de Memória e Cultura e a Unidade de Gestão Documental do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJGO) realizou, nesta quinta-feira (6), o evento “Roda de Conversa: a relação do Judiciário Goiano com a História de Goiás", com objetivo de estimular a reflexão e o debate sobre a trajetória histórica da Justiça no Estado, desde os primórdios de sua instalação, no final do século XVIII, até o contexto contemporâneo.
Presidente da Comissão Permanente de Memória e Cultura do TJGO, o desembargador Itaney Francisco Campos (foto abaixo) abriu o debate ressaltando a importância de se preservar a memória ativa do Poder Judiciário como parte fundamental da história social e cultural de Goiás. “A história de um povo não se contorna apenas nos livros didáticos”, disse, ao observar que decisões, certidões, ofícios e demais registros cotidianos formam um Acervo que revela como a lei foi aplicada e vivida ao longo do tempo. “Cada documento preservado funciona como uma janela para compreender crises, transformações e o desenvolvimento das cidades, constituindo um patrimônio que ilumina a trajetória do Judiciário e da sociedade goiana”, afirmou.

Diretora do Centro de Memória e Cultura do Poder Judiciário do Estado de Goiás, Laylla Vilarinho ressaltou o papel histórico da cidade de Goiás na trajetória do Poder Judiciário goiano, lembrando que o Tribunal de Justiça é um dos mais antigos do país, criado em 1874, e que, desde então, acompanha as transformações políticas, sociais e culturais do Estado.
Ela participou de forma virtual e destacou que o Centro de Memória, instalado no edifício que abrigou a primeira sede do Tribunal, preserva documentos dos séculos XVIII ao XX, muitos deles provenientes de comarcas históricas, o que constitui “um patrimônio inestimável para a preservação da história e da Justiça goiana”. Laylla explicou que o Acervo vem sendo tratado, higienizado, digitalizado e disponibilizado em repositório eletrônico, além de integrar exposições permanentes e temáticas que recebem milhares de visitantes e pesquisadores, “o que reforça o compromisso da instituição com a valorização da memória judicial e dos direitos humanos”.

O historiador Nars Chaul apresentou um panorama amplo da formação histórica de Goiás, ao observar que a sociedade local se estruturou a partir do Ciclo do Ouro, seguido por um rápido processo de ruralização e consolidação de uma economia agropecuária.
Ele alertou para a necessidade de cautela ao analisar documentos desse período, lembrando que muitos viajantes europeus interpretaram a realidade goiana com um olhar distorcido por referenciais externos e que a chamada “Decadência” pós-mineração não corresponde à complexidade do processo histórico. Para Chaul, compreender esse contexto evita leituras equivocadas sobre a organização social, marcada pelo coronelismo e pela forte influência das oligarquias na estrutura de poder.
No segundo momento, Chaul ressaltou as transformações políticas do início do século XX. Ele explicou que a transição de Goiás para Goiânia refletiu novas mentalidades, influenciadas por lideranças médicas e tendências políticas internacionais, situando o Judiciário dentro dessas mudanças estruturais.
Segundo o historiador, esse percurso ajuda a entender como a modernização se concentrou no Sul e no Sudoeste do Estado e como movimentos nacionais, como a Marcha para o Oeste e a construção de Brasília, moldaram o território, repercutindo nas dinâmicas que os pesquisadores encontram hoje nos acervos históricos.
Sócio Correspondente do Instituto Histórico E Geográfico Brasileiro (IHGB), o Promotor de Justiça Jales Guedes Coelho Mendonça apresentou um panorama das mudanças políticas que marcaram o Judiciário goiano no início do século XX, destacando episódios como a ampliação do Tribunal para evitar uma intervenção federal e a ascensão, em 1930, do grupo derrotado em 1926, que retornou ao poder após a Revolução, movimento no qual dois dos três membros da junta governativa eram magistrados. Ele contextualizou como a Revolução de 1930 atingiu o Judiciário ao revogar nomeações e promover ajustes tanto no plano estadual quanto federal.
Participaram da roda de conversa, também, a professora da Faculdade de História da Universidade Federal de Goiás (UFG), Maria Lemke, e a professora aposentada da UFG, Cristina Moraes. (Texto: Loren Milhomem/ Ejug/ Fotos: Myreille Caetano)