
Criado pelo Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJGO) para oferecer uma alternativa humanizada à responsabilização de autores de crimes de menor potencial ofensivo, o programa Magnólia tem promovido mudanças concretas na vida de seus participantes. Ao completar um ano de funcionamento nesta sexta-feira (27), a iniciativa já impactou 246 pessoas, apostando em acolhimento, escuta qualificada e atividades educativas como ferramentas de transformação e prevenção à reincidência.
A empreendedora Jade Ramos é uma dessas participantes. Ela conta que a experiência despertou mudanças significativas, tanto em atitudes quanto no resgate de algo que sempre fez parte de sua vida, que é a pintura.
Ao ingressar no programa, Jade diz que se surpreendeu com a abordagem adotada. “Imaginei que, ao passar por uma audiência em uma situação delicada, enfrentaria algo mais convencional, mais padrão. Mas foi muito diferente. É um espaço acolhedor, com atividades que nos tiram a armadura e nos abrem, como uma terapia ocupacional. As pessoas acabam mostrando quem realmente são, com seus talentos e suas transformações. É um projeto muito lindo”, relata.
Os encontros são realizados mensalmente, com cerca de 30 participantes por turma. A programação inclui palestras, dinâmicas, oficinas, leitura de livros e outras atividades voltadas ao acolhimento e à orientação. A proposta é estimular a reflexão e a responsabilização, substituindo medidas punitivas por ações educativas e sociais, com foco na conscientização humanizada. As atividades ocorrem no Fórum Cível Dr. Heitor Moraes Fleury, em Goiânia.

Oportunidade de recomeço
Idealizado pela juíza Maria Umbelina Zorzetti, titular do 3º Juizado Especial Criminal de Goiânia, o programa atende usuários de drogas e autores de infrações de menor potencial ofensivo encaminhados ao Juizado Especial Criminal. A iniciativa permite a substituição de penas tradicionais por medidas educativas, palestras e acompanhamento.
Desde março de 2025, o Magnólia vem se consolidando como uma prática voltada à prevenção da reincidência criminal e à reinserção social. A magistrada destaca que, ao longo desse primeiro ano, o programa se tornou uma “rede viva de transformação”. “Mais do que números, evoluímos na capacidade de escuta. Ajustamos a abordagem educativa, incorporamos a Comunicação Não Violenta e consolidamos o juizado como um espaço onde o cidadão não vem apenas cumprir uma pena, mas repensar sua trajetória”, afirma. Ela também ressalta o diferencial da iniciativa: “É uma justiça que não precisa ser pesada para ser eficiente”.

Segundo a juíza, o programa vai além da aplicação de sentenças. “Lidamos com infrações que, se ignoradas, podem ser porta de entrada para crimes mais graves. O Magnólia oferece um espaço seguro de reflexão, no qual entregamos não apenas decisões judiciais, mas ferramentas para que o indivíduo identifique padrões saudáveis e faça escolhas melhores. É uma prática que enxerga o ser humano por trás do processo”, explica.
Já o conciliador do 3º Juizado Especial Criminal, André Luiz de Vasconcelos Teixeira, destaca o caráter inovador da iniciativa. Para ele, o programa promove uma responsabilização mais consciente por parte dos participantes.
“Muitas vezes, o Autor do fato não percebe o peso de suas escolhas até ser convidado a refletir sobre elas. O Magnólia retira o indivíduo da passividade da punição e o coloca como protagonista de sua própria mudança”, observa.

Empreendedorismo e transformação
Além das atividades reflexivas, o programa também incentiva o desenvolvimento de habilidades e novas perspectivas de vida. Oficinas de pintura, desenho, atividades artísticas e momentos de integração fazem parte dos encontros.
A iniciativa conta com o apoio de parceiros como a Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Goiás (OAB-GO), o Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e profissionais de diversas áreas, como psicólogos, que contribuem com dinâmicas interativas e abordagens humanizadas.
A coordenadora regional do Sebrae, Alice Galvão, fala dessa ‘virada de chave’ e destaca o impacto do empreendedorismo nesse processo de transformação. “Trouxemos nesse programa a capilarização do atendimento do Sebrae, em parceria com o TJGO. A ideia é mostrar que existe caminho dentro do empreendedorismo para a mudança de vida e para o reestabelecimento dessas pessoas dentro da sociedade. É empreender para recomeçar dentro de uma perspectiva leve, acolhedora, inspiradora, acessível e uma oportunidade real de transformação individual e coletiva em uma capacitação qualificada e gratuita”, afirma.
Acolhimento e reflexão
A psicóloga Thayssa Moiana, que faz parte do programa, ressalta que o Magnólia promove um ambiente de sensibilização e reconstrução de trajetórias. “Quando o atendimento é humanizado, com acolhimento respeitoso e cuidadoso, as pessoas reduzem a resistência e aderem melhor às orientações. O programa oferece acolhimento e reflexão, ajudando os participantes a compreender suas atitudes, avaliar consequências e fazer escolhas mais conscientes”, explica. Ela acrescenta que esse processo fortalece os recursos internos dos participantes e amplia sua capacidade de mudança.

Um novo começo
Ao retomar sua experiência, Jade Ramos resume o impacto do programa como um verdadeiro renascimento. “O projeto foi transformador para mim. A arte que aprendi me fez rever comportamentos e repensar ambientes e atitudes que não quero mais. É uma iniciativa que traz soluções e conforto para as pessoas”, conclui. (Texto: Karineia Cruz – Diretoria de Comunicação Social do TJGO)