
A transformação digital no Judiciário brasileiro tem ganhado velocidade nos últimos anos, e o Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJGO) aparece como um dos protagonistas desse movimento. Com o desenvolvimento de soluções próprias de Inteligência Artificial (IA), o Poder Judiciário goiano tem aumentado a eficiência na análise de processos e criado ferramentas que hoje servem de referência nacional.
Entre os projetos de maior destaque estão a Busca Eletrônica Recursiva em Registros usando Linguagem Natural (Berna) e a Assistente para Geração Automática de Documentos com Inteligência Artificial (Agaia). A Berna é um sistema que identifica ações repetitivas e litigância abusiva, enquanto a Agaia, assistente de IA generativa, oferece apoio na produção de documentos e na organização de informações jurídicas.
Essas tecnologias ajudam magistradas, magistrados, servidoras e servidores a lidar com um dos principais desafios da Justiça brasileira: o elevado volume de processos. Ao automatizar tarefas repetitivas e organizar grandes volumes de dados, os sistemas permitem que juízas e juízes atuem de forma mais eficiente na análise jurídica das demandas.
Segundo o presidente do TJGO, desembargador Leandro Crispim, a inovação tecnológica tem papel fundamental na modernização do Judiciário e na melhoria dos serviços prestados à população. “O uso apropriado da Inteligência Artificial permite ampliar a eficiência do Judiciário sem abrir mão da segurança jurídica. As ferramentas desenvolvidas no Tribunal de Justiça de Goiás reforçam nosso compromisso com um serviço mais ágil, transparente e acessível ao cidadão”, afirma Crispim.

Dados divulgados em setembro de 2025 pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) indicam que a utilização de IA já é uma realidade consolidada no Judiciário brasileiro. A pesquisa identificou que de 98 novos projetos de IA desenvolvidos em 2024, 35,8% estavam relacionados com soluções de apoio à Decisão Judicial; 25,7% envolviam soluções voltadas à gestão processual; 18,9% dedicavam-se à automação de processos judiciais; e 7,4% eram direcionados para atendimento ao cidadão. A pesquisa teve a participação de 92 tribunais e conselhos, o que corresponde a 96,8% do total de 95 órgãos. (Confira mais informações abaixo ou por meio deste link)

Após o primeiro diagnóstico sobre o uso de Inteligência Artificial Generativa no Poder Judiciário, realizado em 2024 e divulgado em 2025, o Comitê Nacional de Inteligência Artificial do Judiciário já iniciou a segunda pesquisa sobre o tema, dando continuidade ao processo de escuta de magistrados e servidores. A nova etapa busca aprofundar a compreensão sobre como a IAG tem sido utilizada no cotidiano do trabalho judicial, além de identificar desafios, oportunidades e boas práticas. Os resultados irão subsidiar o aprimoramento das diretrizes estabelecidas pela Resolução CNJ nº 615/2024, com o objetivo de alinhar a regulamentação à realidade institucional.
Referência nacional
Neste cenário de crescimento e estímulo ao uso de IA no Judiciário, iniciativas desenvolvidas pelo TJGO passaram a servir de modelos replicados em outros tribunais brasileiros. Um dos principais exemplos é a Berna, sistema de IA criado em 2020 pelo TJGO para identificar processos semelhantes e auxiliar no enfrentamento de demandas repetitivas. Desenvolvida com base em processamento de linguagem natural, a ferramenta analisa automaticamente petições e documentos jurídicos para identificar padrões entre ações judiciais.
Em dezembro de 2025, a tecnologia foi nacionalizada pelo CNJ e integrada, em março deste ano, à Plataforma Digital do Poder Judiciário (PDPJ-Br), permitindo seu uso por magistradas e magistrados, em todo o país, por meio do projeto Conecta.
De acordo com o juiz auxiliar da Presidência do TJGO, Gustavo Assis Garcia, responsável pela pasta de inovação, a ferramenta representa um avanço importante na gestão do grande volume de processos que chegam diariamente ao Judiciário. “A Berna permite identificar rapidamente ações com alto grau de similaridade, o que facilita o tratamento de demandas repetitivas e contribui para decisões mais uniformes. Isso representa ganho de eficiência para o Poder Judiciário e mais rapidez na resposta à sociedade”, explicou o Magistrado.

A ferramenta consegue identificar petições com 80% ou mais de similaridade, agrupando automaticamente processos semelhantes. Com isso, atividades que demandavam dias para serem analisadas podem ser realizadas em poucas horas.
Agaia
O avanço tecnológico no Poder Judiciário de Goiás ganhou uma nova etapa com o lançamento da Agaia, apresentada em 2024.
A ferramenta utiliza inteligência artificial generativa para auxiliar magistrados e servidores na produção de documentos judiciais e administrativos, além de facilitar a organização de informações processuais.
Integrada aos sistemas Projudi, na área judicial, e Proad, na área administrativa, a plataforma permite gerar resumos automáticos de processos, realizar pesquisas inteligentes de jurisprudência e auxiliar na elaboração de textos técnicos.
Para o diretor de Inteligência Artificial, Ciência de Dados e Estatística do TJGO, Antônio Pires, a iniciativa representa uma evolução na aplicação estratégica da tecnologia no Judiciário. “A inteligência artificial permite otimizar rotinas e organizar grandes volumes de informação. O objetivo dessas ferramentas é apoiar o trabalho humano, reduzindo tarefas repetitivas e assegurando que magistrados e servidores concentrem esforços na análise jurídica e na tomada de decisão”, destacou.

Entre as funcionalidades da Agaia estão a criação de comandos personalizados (prompts), o compartilhamento entre unidades, os limites de tokens processados pelo modelo GeminiPro (IA utilizada pelo Agaia), bem como a impossibilidade de uso da ferramenta em processos que tramitam sob segredo de justiça, em conformidade com as normas legais vigentes.
Em outubro do ano passado, mais de 700 servidores das Unidades de Processamento Jurisdicional (UPJ’s), escrivanias e demais unidades judiciais e administrativas da Comarca de Goiânia participaram do curso sobre a utilização da Agaia. O treinamento foi uma parceria entre a Escola Judicial (Ejug) e a Diretoria do Foro da comarca da capital, e promoveu a capacitação dos colaboradores nas áreas judicial e administrativa.
Durante o treinamento, a diretora do Foro de Goiânia, juíza Patricia Bretas, ressaltou a importância da ferramenta desenvolvida pelo TJGO, e salientou que “a Agaia representa a modernização e otimização do trabalho judicial, garantindo mais agilidade, precisão e transparência”.
Diretrizes do CNJ
Embora o TJGO venha avançando na utilização e desenvolvimento das tecnologias, o uso de IA no Judiciário goiano segue as diretrizes definidas pelo CNJ. As ferramentas funcionam como instrumentos de apoio à atividade jurisdicional, sem substituir a atuação de magistradas e magistrados, com supervisão humana sobre as informações geradas pelos sistemas.
Além disso, as diretrizes estabelecem regras de governança de dados, segurança da informação, transparência no uso de algoritmos e proteção de dados pessoais. A capacitação contínua de magistrados e servidores também é considerada essencial para garantir o uso ético e responsável da tecnologia.
Ana
Além das ferramentas voltadas à gestão processual e administrativa, o tribunal goiano também tem investido no uso da IA para ampliar o acesso da população às informações do Judiciário.
Um exemplo é a Ana, assistente virtual desenvolvida pelo TJGO que visa tornar a comunicação jurídica mais clara e acessível.
Em 2025, pelo segundo ano consecutivo, o Poder Judiciário goiano conquistou o Selo Linguagem Simples, concedido pelo CNJ aos tribunais que utilizam uma linguagem mais clara, direta e acessível em suas comunicações e decisões judiciais.
A ferramenta utiliza recursos de inteligência artificial para responder perguntas, orientar cidadãos sobre procedimentos judiciais e facilitar a navegação pelos serviços oferecidos pela instituição. A assistente foi apresentada nacionalmente durante um evento voltado à inovação no Judiciário, reforçando o papel do TJGO no desenvolvimento de soluções tecnológicas aplicadas à Justiça.
De acordo com a coordenadora do Programa “Simples e Fácil”, juíza auxiliar da Presidência do TJGO, Lidia de Assis e Souza, entre as ações mais destacadas de comunicação clara estão o Projeto Mandados Simplificados, que torna os mandados judiciais mais claros, acessíveis e compatíveis com leitores de tela, o uso da inteligência artificial, com ferramentas como a Agaia, que produz versões resumidas de decisões e ementas, e a Ana, que traduz termos jurídicos e atende cidadãos em linguagem simples, inclusive com áudio.

A magistrada destacou que houve ainda investimentos em campanhas de conscientização sobre comunicação objetiva e capacitações que alcançaram todo o Judiciário estadual, além da participação do TJGO na criação da Rede Goiana de Linguagem Simples, que reúne instituições do sistema de justiça em torno de diretrizes comuns e ações integradas.
“Com essas iniciativas, o Tribunal de Justiça do Estado de Goiás materializa os cinco eixos do Pacto Nacional do Judiciário pela Linguagem Simples: simplificação da linguagem, brevidade nas comunicações, educação e capacitação, tecnologia da informação e articulação interinstitucional e social”, acrescentou a magistrada.
A assistente virtual, disponível na página inicial do site do TJGO, permite consultar processos, visualizar resumos das movimentações processuais em linguagem simplificada e fazer perguntas sobre o andamento das ações. As respostas são apresentadas de forma rápida e objetiva.
A Ana também auxilia o usuário a identificar termos jurídicos complexos e apresenta explicações mais simples, considerando o contexto das decisões judiciais.
A iniciativa integra as ações do TJGO voltadas à promoção da transparência, acessibilidade e aproximação do Judiciário com a sociedade. A proposta é utilizar tecnologia e linguagem clara para facilitar o entendimento das informações jurídicas e ampliar o acesso da população aos serviços do TJGO.

Diretoria de Comunicação Social do TJGO
Texto: Carolina Dayrell
Artes: Bárbara Carvalho
Fotos: Agno Santos e Acaray Martins