
Marina de Jesus Tapuia, de 58 anos, falou com orgulho sobre sua identidade como mulher indígena, ao compartilhar vivências pessoais, a importância da ancestralidade e os desafios e as conquistas enfrentados por mulheres indígenas em diferentes espaços da sociedade durante uma roda de conversa realizada nesta sexta-feira (4), na Aldeia Carretão do Povo Tapuia, a 43 quilômetros da Comarca de Rubiataba. Ela e outras mulheres dividiram suas experiências na atividade, que marcou a segunda edição do projeto ‘Caminhos de Diálogo: Vozes de Mulheres Indígenas’. A iniciativa integra o projeto ‘Justiça que Escuta’ e foi realizada em alusão ao Dia Internacional da Mulher Indígena, celebrado em 5 de setembro.

Em meio ao território indígena, o Juiz Leonardo de Souza Santos, 2º coordenador Adjunto de Igualdade Racial da Coordenadoria de Igualdade Racial do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJGO), participou da ação, acompanhado pelos integrantes da Coordenadoria de Igualdade Racial, Adriana Uassuri de Souza e Afonso Rodrigues Bruno Neto.

De acordo com o Magistrado, a iniciativa foi positiva por promover uma escuta qualificada, baseada no diálogo respeitoso e intercultural e no reconhecimento das experiências, dos saberes e das vivências das mulheres indígenas. “A nossa expectativa é de que outras edições sejam promovidas em todo o Estado”, frisou.
Leonardo de Souza Santos ressaltou ainda que a roda de conversa busca contribuir para o fortalecimento da autonomia das mulheres indígenas e incentivar sua participação cidadã, considerando e respeitando seus valores culturais, modos próprios de organização e protocolos de decisão.

Voz da comunidade
Uma das matriarcas da Aldeia Carretão, Marina de Jesus Tapuia, contou que nasceu no território indígena e destacou a importância da presença do Poder Judiciário na comunidade para ouvir as demandas dos moradores. “A gente antigamente não tinha esses eventos, nem mesmo os acessos que temos hoje. O povo está vindo aqui na nossa aldeia, e isso para nós, é uma honra”, afirmou.
Maria Aparecida, também moradora da comunidade, falou sobre os projetos desenvolvidos pelos moradores e relatou dificuldades enfrentadas na comercialização dos produtos cultivados na aldeia. Durante a roda de conversa, os moradores também apresentaram outras demandas relacionadas à comunidade.
Demandas do Judiciário
Entre os assuntos discutidos estavam a necessidade de obtenção de recursos para custear projetos na área da cultura e as dificuldades enfrentadas pelos moradores para obter benefícios previdenciários.
Segundo os relatos, quatro pessoas idosas da comunidade aguardam na Justiça decisões relacionadas a pedidos de aposentadoria que foram negados pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

Saúde
Nesta área, os moradores relataram que a assistência ocorre com frequência no Posto de Atendimento da Aldeia, onde profissionais trabalham quase que diariamente, mas pontuaram que, em alguns casos, é necessário deslocar-se para cidades maiores em busca de atendimento especializado. A comunidade também reivindicou a construção de uma creche para acolher às crianças, diante do crescimento do número de recém-nascidos na aldeia.
Memória e cultura
Durante o encontro, os moradores também apresentaram o projeto Jornada Ampliada, que trabalha com a preservação e a ampliação da memória da escola e da comunidade. Na ocasião, foi destacada a falta de recursos para a customização e preservação de objetos típicos da cultura indígena.

Promoção do diálogo
O cacique da Aldeia Carretão, Dorvalino Augusto da Silva Tapuia, enfatizou a importância da aproximação do Poder Judiciário com a comunidade indígena. Para ele, iniciativas que promovem o diálogo e a construção de parcerias são fundamentais para identificar necessidades e buscar soluções conjuntas. “Eu acho boa essa oportunidade de ter essa comunhão, porque a gente tem que buscar parceiros. Acho que esse é o melhor caminho que a comunidade indígena tem. E, com os parceiros, a gente consegue se somar muito e ir à frente, conseguir as coisas”, afirmou.

Dorvalino também ressaltou que a aproximação com o Tribunal de Justiça já possibilitou avanços em demandas apresentadas pela comunidade. Segundo ele, representantes do TJGO participaram de reuniões e contribuíram para a busca de soluções para questões enfrentadas pelos moradores. “A gente fica grato. Os parceiros estão contribuindo conosco, com as comunidades indígenas”, destacou.
Território
A comunidade indígena reúne atualmente cerca de 66 famílias, totalizando aproximadamente 240 pessoas, em uma área demarcada de 1.743 hectares. Segundo Dorvalino, a conquista do território foi resultado de anos de luta e resistência, especialmente diante dos conflitos enfrentados no passado com fazendeiros da região. De acordo com a liderança, a área foi conquistada entre o final de 1999 e o início dos anos 2000. Desde então, a comunidade cresceu e passou por melhorias nas condições de vida.

Atualmente, a aldeia conta com duas unidades escolares e dispõe de uma estrutura que também funciona como ponto de encontro e referência para os moradores. O espaço é utilizado para reuniões, celebrações religiosas e festas tradicionais, entre elas as comemorações do Dia dos Povos Indígenas, celebrado em 19 de abril, além das festividades do Rosário e das missas realizadas duas vezes por mês, com a presença de um padre. O local também recebe visitantes que chegam à comunidade.
Dorvalino explicou ainda que a organização das famílias ocorre por meio de lotes, nos quais os filhos permanecem próximos aos pais mesmo depois de constituírem suas próprias famílias. Segundo ele, esse modelo contribui para preservar os vínculos familiares e fortalecer a convivência comunitária.
Diálogo permanente
A ação integra o projeto ‘Justiça que Escuta’, que busca manter um diálogo permanente com os povos indígenas, considerando as especificidades, demandas, culturas e formas próprias de organização de cada comunidade. A iniciativa busca fortalecer a articulação institucional, ampliar o acesso aos direitos fundamentais e contribuir para o aperfeiçoamento das políticas públicas destinadas à população indígena em Goiás.

O projeto também constitui uma estratégia de enfrentamento ao racismo e às discriminações étnico-raciais, fortalecendo uma atuação do Poder Judiciário baseada na escuta, no respeito à diversidade cultural e na promoção dos direitos humanos.
Exposição cultural
O centro da roda de conversa também se transformou em um espaço de valorização da cultura indígena, com a exposição de diversos objetos decorativos e peças tradicionais.
Cada item apresentado revelou aspectos da identidade e das tradições do povo Tapuia, permitindo aos participantes conhecer de forma mais próxima a riqueza cultural e artística da comunidade.

(Texto e fotos: Acaray Martins - Diretoria de Comunicação Social do TJGO)