
Com dinâmicas diversificadas, roda de conversa e reflexões, foi realizada na última segunda-feira (27), no Fórum Cível de Goiânia, mais uma edição do Programa Elos, que completará dois anos de seu lançamento na próxima quarta-feira (29). Desenvolvida por meio de parceria entre o Centro Judiciário de Soluções de Conflitos (Cejusc) Criminal de Goiânia e o Núcleo de Justiça Restaurativa (Nucjur), a iniciativa do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJGO) busca oferecer uma resposta social mais eficaz e humanizada para pessoas autuadas por posse de drogas para uso pessoal, ao promover conscientização sobre os efeitos danosos da prática e incentivar o autoconhecimento e a reabilitação.
Por se tratar de um momento para celebrar os dois anos do projeto, prestigiaram a reunião a diretora do Foro de Goiânia, juíza Patricia Bretas; a coordenadora do Cejusc Criminal, juíza Lara Gonzaga de Siqueira; a coordenadora adjunta do Nucjur, juíza Ilanna Rosa Dantas, e o professor da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC), terapeuta e pesquisador de “impulsividade e autocontrole”, Cristiano Coelho. Também estiveram presentes a promotora de Justiça Cejana Louza Veloso e o promotor de Justiça Paulo César Torres.
As reuniões são realizadas uma vez por mês e conduzidas pela coordenadora do Cejusc, Cláudia Serradela Rodrigues; pela secretária-executiva do Nucjur, Mônica Vieira da Silva; e pelo conciliador do 2º Juizado Criminal de Goiânia, Lucas Augusto Lima.
Prevenção
A juíza Patricia Bretas iniciou os trabalhos esclarecendo o objetivo do programa e a importância de sua realização. “Por se tratar de um delito de menor potencial ofensivo, a justiça efetiva envolve especialmente nesses casos, prevenir novas ocorrências porque o que hoje não é grave pode um dia se tornar gravíssimo, e o que a gente quer é evitar isso. Para tanto, tentamos incentivar o diálogo, o autoconhecimento e a busca pelos profissionais da rede de apoio que podem também ajudá-los”, ponderou.

Para a magistrada Ilanna Rosa, igualmente, em muitos casos o caminho não é a repressão, mas o acolhimento. “A grande maioria das pessoas que estão aqui, se não for a totalidade, é vulnerável. Nesses casos, justiça mesmo é ajudá-las a compreender o porquê de suas escolhas, identificar a raiz do problema, bem como conscientizá-las sobre suas consequências. Auxiliá-las a refletir sobre seu contexto de vida, sua identidade enquanto indivíduo, o que pode ser melhorado, o que pode ser feito para quebrar esse ciclo”, analisa.

Essa também é a opinião da juíza Lara Gonzaga, para quem o Programa Elos é exitoso porque parte do princípio que o uso de drogas é uma questão de saúde pública e também de comportamento, razão pela qual exige um tratamento diferenciado por parte do Poder Judiciário.

Dinâmica
Após os 28 participantes aceitarem prosseguir na reunião, condição apresentada pelos representantes do Ministério Público do Estado de Goiás (MPGO) para propor Acordo de Não Persecução Penal (ANPP) e o arquivamento do Termo Circunstanciado de Ocorrência (TCO), Cláudia Serradela deu início a uma dinâmica na qual todos formaram um círculo.
Em seguida, com um rolo de barbante na mão, ela se propôs a dizer o que considerava seus maiores defeito e qualidade e jogou o rolo para outro do grupo, que fazia o mesmo e assim por diante até que se formasse uma rede, entrelaçada de barbante.

A totalidade dos participantes indicou, como seus maiores defeitos, estresse, impulsividade, teimosia e ansiedade e, como qualidade, boa vontade em ajudar outras pessoas. Esse foi o momento em que o professor Cristiano Coelho os provocou a refletir sobre o motivo pelo qual eram tão benevolentes com terceiros mas não consigo mesmos. “Onde está o amor próprio, o autocuidado? Vocês já pensaram sobre o porquê de terem bom coração com os demais, mas não consigo?”, questionou o terapeuta.

Autocontrole
A partir dessa pergunta, o especialista deu início a uma roda de conversa na qual os participantes, com sua ajuda, desabafaram e conversaram sobre suas histórias de vida, sofrimentos, traumas, famílias, vergonha e falta de amor-próprio. “Eis a questão, o uso da droga é só a ponta do iceberg. É necessário entender que é, sim, possível se recuperar, voltar a se amar e a se cuidar, mas que isso envolve um processo lento, gradativo e porque vocês não têm conseguido? Porque têm pressa, estão estressados. Então vejam que o caminho para mudar o comportamento passa pela percepção de que a recuperação se dá como passinhos de bebê e é preciso se dar essa chance de aprender a ter autocontrole e comportamentos saudáveis quando confrontados com situações adversas”, pontou.
Ao final das atividades, os participantes se disseram positivamente surpresos e gratos pelas dinâmicas e receberam um folder contendo contatos diversos de locais e profissionais que oferecem atendimento psicológico gratuitamente ou em valores acessíveis, além de grupos de ajuda mútua, rede de atenção psicossocial e, ainda, entidades que disponibilizam capacitações, cursos e treinamentos que possibilitam encaminhamento e aprimoramento profissional gratuitos. (Texto: Patrícia Papini / Fotos: Laura Cipriano - Diretoria de Comunicação Social do TJGO)