
O Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJGO), por meio do Núcleo de Justiça Restaurativa (NucJur), concluiu, nesta terça-feira (28), a formação da primeira turma do programa “Além da Punição”, na Unidade Prisional Regional Feminina de Aparecida de Goiânia.
A iniciativa tem como base princípios da Justiça Restaurativa, que prioriza diálogo, escuta qualificada e reflexão sobre os impactos dos atos por elas praticados. O grupo, iniciado em outubro do ano passado, contou com a parceria da Pastoral Carcerária da Arquidiocese de Goiânia e da Diretoria-Geral de Polícia Penal (DGPP), certificando sete reeducandas condenadas em regime fechado.

Para a coordenadora adjunta do NucJur, juíza Ilanna Rosa Dantas Lents, da comarca de Luziânia, a iniciativa marca mudanças de comportamento. “Desde que comecei a trabalhar na Justiça Restaurativa, temos visto o quanto essas iniciativas, em especial no âmbito da execução penal, influenciam na vida das pessoas que participam dos círculos de construção de paz. Temos a oportunidade de trabalhar com reconstrução de identidade, autoconhecimento, mudança de visão e comportamento. E, a partir deste processo, vemos pessoas transformadas, que não mais desejam reincidir no crime.”, compartilhou.
A secretária executiva do NucJur, Mônica Borges, ressaltou o trabalho desenvolvido pelo juiz Decildo Ferreira Lopes, coordenador do NucJur, que tem buscado ampliar as ações de Justiça Restaurativa em todo o Estado. “O Além da Punição, com a realização de Círculos de Construção de paz nas unidades prisionais, iniciou-se em 2018 com um projeto-piloto em Goianésia, comarca do magistrado, firmando convênio com a DGPP, e expandindo para as demais unidades prisionais do Estado. Em Aparecida de Goiânia, iniciamos a primeira turma ano passado. O projeto tem um olhar diferenciado e é uma oportunidade dessas mulheres se reconhecerem e criarem perspectivas de um novo futuro, vislumbrando uma nova vida fora do presídio”, contou ela, junto com a também servidora do NucJur, Laiane Carolina de Matos.
A diretora da unidade prisional, Patrícia Rocha dos Santos, destacou os benefícios que o círculo de paz vem trazendo para dentro das unidades prisionais. “Geram reflexos positivos no cotidiano da unidade, porque as relações humanas, de forma geral, já são bem complexas. Vejo esse momento de pausa, reflexão e escuta para as pessoas privadas de liberdade, como uma forma de libertação”, explicou.
Já a irmã Bárbara Kiener, da Pastoral Carcerária, que acompanhou ativamente as ações junto às detentas, disse ser um espaço seguro onde elas podem falar, se abrir e se transformar, enquanto são ouvidas e compreendidas. “A cada novo encontro, vemos o impacto na vida dessas mulheres privadas de liberdade. Estamos em êxtase de concluir o círculo de construção de paz na unidade de Aparecida de Goiânia, primeira turma, e observamos que mais aprendemos que ensinamos”, falou, ao lado das facilitadoras Luciane Borba e Caroline Carneiro.

Uma das detentas, J.G.R., que pretende escrever um livro sobre a experiência de ter participado do círculo de paz, enfatizou que há doze anos está reclusa e que neste período ninguém conseguiu proporcionar a abertura de fala que ela teve com o projeto. “Aqui contei da minha infância e de sentimentos guardados que me fizeram libertar coisas dentro de mim. Isso restaurou minha vida. Sou grata por ver que é possível não desistir e edificar nossas vidas, nossas histórias e nossos sonhos. Agradeço por me enxergarem. Sei agora que posso sair daqui, sociabilizar, escrever meu livro sobre essas histórias”, contou, ao dizer que novas histórias podem ser reescritas longe do caminho da criminalidade.

(Texto: Karineia Cruz/ Fotos: Edmundo Marques – Diretoria de Comunicação Social do TJGO)